Génis da Emigração Massiva São-tomense para o Reino Unido

Téla di San Lénha


É esta a denominação do Reino Unido – Terra da Senhora Rainha, expressa no crioulo são-tomense, o Forro. Desta forma, referem muitos São-tomenses ao território que sempre aparentou-lhes ser um destino de requinte, ou mesmo “um éden impermeável”. A priori, pode até parecer uma análise redutiva, mas se nos despirmos de preconceitos, vemos que, mesmo nos dias de hoje, até para as outras nações do primeiro mundo – ipse dixit, Inglaterra impõe-se como um “Oásis” por diversos motivos. Na primeira década que seguiu a ascensão das ilhas de São Tomé e Príncipe à (In)dependência Nacional, a relação entre o país e a Grã-Bretanha, bem como as presenças dos nacionais no território, eram meramente diplomáticas. A partir da década 90 do século passado, fora deste domínio, despontaram alguns interesses comerciais mais intensos, e, como consequência destes, intenções de fixação de residência; contudo, as limitações ainda eram enormes, pois que, além da insularidade territorial, a rigidez da política de imigração impunha-se como o factor de impedimento, sobretudo, para os nacionais dos países que não eram membros da União Europeia (ora CEE) ou da Commonwealth. Porém, neste mesmo período, os Angolanos já aterravam e aportavam nas ilhas britânicas numa emigração familiar, muitos com o estatuto de refugiados devido da fuga a luta armada, outros também no contexto académico e/ou empreendimentos comerciais. Este elemento, joga um papel fulcral para os São-tomenses na sua entrada crescente no país; pelo que, devido ao relacionamento especial que sempre caracterizou estes dois povos, os Angolanos vão assim servir-lhes de “reboque”, passe-se a expressão, abrindo-lhes algumas portas e indicando alguns caminhos. Já o havia dito, e volto a frasear: toda a emigração, seja ela por que motivo for e qual for o seu resultado, é sempre forçada, e a grande motivação está intimamente relacionada com a tradicional busca de melhores condições de vida, ou mesmo a luta pela sobrevivência, em casos mais dramáticos..

Os tratados, de Maastricht (1993) e Amesterdão (1997), permitiram e consolidaram, respectivamente, a livre circulação de pessoas nos países subescritores, bem como a permanência e o direito de trabalho, sem grandes formalismos. No entanto, o "Opt out" do Reino Unido que excluiu o país da subscrição integral dessas directivas, e igualmente no Tratado Schengen (1995), no qual a Irlanda e a Dinamarca se juntaram no “Opt Out”, limita essa circulação aos cidadãos naturais dos estados membros da UE em plenos direitos. O irónico contraste da evolução da presença portuguesa na UE contra o agravamento das condições económicas e sociais em Portugal começou a sugerir a emigração como uma alternativa válida, e apontava a Inglaterra como um destino mais apropriado e óbvio. Emigração, esta, que seria uma ré-emigração, para grande parte dos São-tomenses Portugueses. Embora esta entrada tenha sido em número progressivamente crescente, no início de 2000 já estimava-se cerca de uma centena de famílias nesta categoria. Juntamente com alguns portugueses – ditos de gema, a maioria chegava pelos contactos pré-estabelecidos com os seus conhecidos ora residentes no território ou pelas agências portuguesas de recrutamento, que forneciam mão-de-obra para grandes multinacionais: unidades fabris e indústria de alimentação, como a Grampian, Vion, Bernard Matthews, etc., principalmente, para as regiões de Suffolk e Midland; tal é que, são nestas regiões onde se concentrou a maior parte desta emigração. A Lei Orgânica, entrada em vigor em 2006, gerou uma nova classe dos portugueses - sine nulla discrimine - muitos de origem São-tomense. Sob as mesmas motivações já referidas, verifica-se o boosting da entrada dos São-tomenses no Reino Unido à partir deste período, numa avalanche continuada

Nem sempre os motivos de atracção às certas venturas são os mesmos que condicionam a sua perpretação. Neste caso particular, o estímulo era, sem dúvida, as oportunidades de trabalho, uma integração rápida - quase que automática, pelo menos no contexto social, pese embora as barreiras linguísticas para a grande maioria. Como reportado por um dos dinossauros desta emigração, «notava-se um sentimento quase que generalizado de acarinhamento e solidariedade das pessoas, o que não se via em Portugal, por exemplo». Para alguns, não seria um “Sonho Britânico” preenchido se não houvesse uma passagem por Londres, e assim, o anseio da ascensão académica acaba por ser um dos pretextos para essa posterior migração para a capital, com grande ênfase para a região do East London.

Actualmente, a emigração são-tomense para o Reino Unido afigura-se como uma das mais significativas e mais expressivas em números (estimado em 9 mil) na Europa. A falta de uma representação diplomática física em Londres e da capacidade eleitoral parecem ser algumas das frustrações unanimemente partilhadas no seio da comunidade, deixando-a sem outra opção que não seja o refúgio na segunda cidadania. A importância desta particular diáspora não deve, no entanto, ser subvalorizada pois que é de grande contribuição no envio de remessas e produtos ao país, como também, acrescenta outros elementos que são a formação académica e uma visão cosmopolita do mundo. Não obstante ao valor exorbitante da comunicação com as ilhas, cuja abordagem foi por mim retratada num dos meus artigos, não parece haver um distanciamento da terra natal; e por outro lado, é notável a frenética manifestação de intenções de darem os seus contributos na resolução de questões que afligem o país, e naquilo que se revele benéfico. Certamente poderá haver outros testemunhos, e convém sublinhar que, nem todos partilham a mesma ventura ou desventura. Como em qualquer parte, a “categoria” dentro da classe é vasta, e igualmente os motivos da sua permanência no Reino Unido. Para a maioria dos casos, a tradicional “busca de melhores condições de vida” continua a ser o argumento principal; e assim, no Reino Unido, o dia-a-dia da diáspora se faz num leve-leve, em várias cidades e em vários contextos; mas a verdade é que, a estrada do “Welcome” ao “Good Bye” só é conhecida por aqueles que percorrem-na.

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